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  • Foto do escritorPedro de Lima

Crato nos anos 1960: entre mudanças e tradições

Pessoas e memórias da cidade


Com sua dimensão quase paroquial e o seu dia a dia provinciano, o Crato, nos anos 1960, sempre oscilava entre o tradicional e o moderno.


O cotidiano da cidade, apesar de ser em muitos aspectos preconceituoso, também propiciava convivências variadas.


Posso dizer, com algum romantismo, que então todos se conheciam: o bancário que parecia com o bispo, o médico que se elegeu prefeito, o circunspecto professor da faculdade de filosofia, os comerciantes e comerciários da Pernambucana, do Armazém Recife, da Babilônia, da Azteca...


Conheci Mariquinha, a caixa do Café Lider, Canena, a senhora que vendia fígado com tapioca perto da antiga estação ferroviária e Xavier, um menino pobre e negro que, depois veio a eleger-se vereador da Câmara do Crato.


Também eram conhecidos e bastante populares os jogadores de futebol do Esporte Clube, do Cariri ou do Crato Atlético: Péscorado, Anduiá e Manoel do Óleo... Os jogadores de futebol de salão, do Volks, do Tênis Clube, da AABB: Dudu, Paulo César, Zé Vicente, Zé Louro, Vicente Pezão... E os músicos, entre eles Carreínha, Azul, Hildegardo, Zé dos Prazeres.




A gente conhecia os sapateiros que botavam meia sola e consertavam os saltos altos dos sapatos; um dele prestava esse serviço na calçada da rua Senador Pompeu; os alfaiates (Rivadádia...); os barbeiros; e Enoch, ex-jogador de futebol que vendia o melhor cachorro-quente da Festa da Padroeira.


As pessoas pobres que perambulavam e mendigavam pelas ruas, e outros personagens também eram conhecidas.


Geralmente, eram pessoas desamparadas e inofensivas, que os adultos usavam para fazer medo às crianças, como Mói-mói, o Véi do saco...


A maioria desses personagens era motivo de piadas, chacotas e outras violências.


Tinha o Noventa que trabalhava transportando mercadorias e era fustigado incessantemente com perguntas dúbias, que as pessoas achavam engraçadas... Havia o (...)-de-Apito, famoso engraxate de apelido impublicável. Lembro o alto e magro Capela, um cozinheiro que escandalizava com a sua fala e trejeitos... Existiam Antõe Cornim e Sorriso, dois personagens que pareciam formar um casal...


Além desses, também eram motivo de zombarias Tandor, com chapéu enfeitado, lenço vermelho no pescoço e um anel em cada dedo das mãos; e o Príncipe Ribamar, que era do Juazeiro, mas frequentemente vinha ao Crato, usando faixa em diagonal e condecorações...


Aqueles eram outros tempos. Poucas pessoas discerniam o que eles consideravam simples gracejos de atos discriminatórios e de desrespeito às pessoas e às suas diferenças.


Urbanização e crescimento desordenado


Muitas vezes, tive o desprazer de encontrar a cidade abandonada e mutilada, como aconteceu na rua Dr. Miguel Lima Verde. Seus prédios de valor histórico bonitos, foram destruídos para dar lugar a uma desnecessária ampliação da rua...


As matas remanescentes também foram abatidas e substituídas por loteamentos; muitas fontes e levadas do Lameiro secaram...


Como qualquer cidade, Crato tem as suas contradições. A história registra suas atitudes progressistas, modernas e transformadoras.


É conhecida a saga de Bárbara, Tristão e Martiniano de Alencar.


Mas, ao mesmo tempo, a cidade teima em exibir um anacrônico ar aristocrático, de um passado, às vezes, mais imaginário do que real. Há um peso enorme do passado e das tradições.


É importante preservar as tradições. São elas que alimentam as inovações e tornam possível a modernização. Por isso, sem perder de vista o valor da memória cultural e da história, é preciso estar aberto para o novo, para a transformação.


Compreender as qualidades do Crato e as suas dificuldades é um passo importante para o seu desenvolvimento.


No Juazeiro do Norte, a tradicional questão religiosa em torno do Padre Cícero foi uma alavanca para o seu crescimento econômico.


No Crato, a mesma questão religiosa, além de preconceito e discriminação contra o Juazeiro e sua população, rendeu apenas discussões acaloradas e alguns livros... Neste caso, a questão religiosa é um dos condicionantes da política e da economia.


Se no Crato não há uma questão religiosa tão marcante como na cidade vizinha, há, porém, uma rica história relacionada com as aspirações de independência e liberdade; há uma brilhante trajetória de ações culturais, artísticas e jornalísticas; e há a exuberante paisagem e a história geológica da chapada do Araripe e do Vale do Cariri.


Todas essas possibilidades sugerem uma grande variedade de ações relacionadas com atividades educacionais, culturais, de turismo etc.


Para deslanchar um processo de desenvolvimento é necessário levar isto em consideração.


O futuro do Crato está atrelado ao futuro da Região do Vale do Cariri e, portanto, ao Juazeiro do Norte. Por isso é necessário planejar esse futuro.


Lamentavelmente, o Crato teve uma sequência de prefeitos que em pouco ou nada contribuíram para a construção e para a melhoria da cidade. Pelo contrário, mergulharam o Crato em ondas sucessivas de estagnação e atraso.


Em diferentes momentos registrei minha inconformidade com essa situação. E até ousei fazer algumas propostas, visando o seu desenvolvimento social, econômico e, principalmente, urbanístico.


Sobre o tema publiquei artigos em jornais regionais. Em um desses artigos, publicado na GAZETA CARIRIENSE, em fevereiro de 1998, sobre a cidade digo que


as soluções para o desenvolvimento do Crato devem ser buscadas a partir de uma perspectiva regional. Isto, entretanto, não impede que a cidade procure construir uma imagem própria, que a distinga das demais e com a qual os seus habitantes se identifiquem. A proposta esboçada aqui tem a intenção de contribuir para a formulação e consolidação desta imagem.




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