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  • Foto do escritorPedro de Lima

Cuba, democracia e revolução

Em Nem tudo são flores, livreto que escrevi e publiquei em 2017, fiz algumas reflexões sobre Cuba, a Revolução e as alternativas possíveis ao capitalismo liderado, sobretudo, pelos EUA. Alguns anos depois revi e acrescentei algumas ideias que publico agora nesse post.




Revolução


Apesar da violência e do obscurantismo inerentes a qualquer ditadura, o regime militar implantado no Brasil, em 1964, fez crescer nos jovens a curiosidade e o desejo de participar.


Aumentou a vontade de ler e de criar. Líamos para conhecer o Brasil: sua história, seus problemas sociais. Em nossos arroubos juvenis, queríamos transformar o país, acabar com a miséria e as desigualdades. E o caminho para isso era combater a ditadura militar e implantar uma verdadeira democracia.


Na verdade, poucos sabiam, de fato, como seria esse Brasil do futuro. Apenas acreditávamos que era necessário fazer uma revolução semelhante à que acontecera na União Soviética, na China e em Cuba.


Os Estados Unidos da América, definitivamente, não eram um modelo para nós. Ao contrário, eles eram o símbolo da dominação e da exploração. Às vezes a gente pichava FORA GRINGOS nas paredes da cidade...


Confesso que ainda hoje, entre as alternativas disponíveis, não consigo dar um nome para a sociedade que eu almejo para o Brasil.


Os EUA continuam sendo um dos motivos do atraso e miséria de muitos povos, pelo mundo afora. No caso do Brasil e de outros países, isto ocorre de forma velada, sabotando a economia e apoiando golpes de estado.


Em Cuba, há mais de sessenta anos, além das tentativas de invasão e de assassinato de lideranças, os norte-americanos tentam asfixiar o país e derrotar a Revolução. Cuba resiste.


Quando conheci Havana, em 2004, senti uma certa magia, um encanto no ar, andando por suas ruas coloridas. Me identifiquei, me senti em casa. As pessoas são educadas, solícitas e simpáticas, e gostam do Brasil e dos brasileiros.


Havana parece uma cidade brasileira, cheia de contrastes. Há pobreza, mas há dignidade. As pessoas têm direito aos serviços básicos, saúde, educação etc.


Hoje, ao revisar a edição desse livro (Nem tudo...), sinto a necessidade de reformular os comentários que fiz sobre Cuba à época (2017).


Eu já sabia do quanto a exploração norte-americana, na primeira metade do século XX, havia estragado o país e, principalmente, Havana. A capital cubana era abrigo para a máfia norte-americana, e se dividia entre cassinos e prostíbulos. A economia só enriquecia os estrangeiros e as elites locais colaboracionistas e corruptas.


Agora já não tenho dúvidas. Entendi por que só uma revolução como a liderada por Fidel Castro e Che Guevara poderia devolver dignidade à população.


Pode-se argumentar que falta liberdade em Cuba. Ou que o regime socialista não permite a existência de dissidentes. Entretanto, observando-se bem se perceberá que nenhum Estado permite a formação de grupos que lutem contra esse Estado.


No Brasil, o regime democrático está inscrito na Constituição como uma cláusula pétrea. Isto é, que não pode ser modificada. Isto significa que não é admissível a existência de partidos fascistas, nazistas.


Entretanto, nos últimos anos, tem sido frequente, e documentada, as manifestações do grupo que ocupou o poder, de 2018 a 2022, a favor de golpes de estado, de retorno da ditadura militar, da tortura e do assassinato de adversários políticos.


Os grupos de extrema-direita chamam isso de democracia, de liberdade de expressão. Enquanto isso, condenam as ações de autodefesa do Estado cubano.


Por isso, o regime socialista cubano não admite a existência de partidos que, em nome da democracia e da liberdade de expressão, defendem o retorno da exploração capitalista. Porém, isto não impede a participação democrática e não exclui a discordância e a disputa política. Desde que essas ações não visem o fim e a substituição do regime socialista. Assim, através de seus representantes na Assembleia Nacional, a população pode discutir e intervir na política econômica, nas políticas públicas etc.


O comércio é uma manifestação cultural que existe desde os primórdios da história. As relações mercantis já ocorriam, há cinco mil anos, na Mesopotâmia. O mercado, portanto, antecede o capitalismo.


Hoje, os processos de mudanças realizados na China, Rússia e Cuba, introduzindo relações de mercado, acontecem sob o controle do Estado para o seu fortalecimento e para ampliar o bem-estar da população.


Em Cuba também está em curso a implantação de modalidades de negócios de livre iniciativa. Quando estive lá em 2004, na universidade já existiam pequenos negócios, como lanchonetes, restaurantes, venda de objetos como pen drive etc. Todavia, como se trata de reintroduzir as relações de mercado, torna-se fundamental manter a supervisão e o controle do Estado. Porque o mercado sem controle estatal leva a crises, por excesso ou escassez, recria a desigualdade e a exclusão social.


Apesar do bloqueio promovido pelos EUA, Cuba sobrevive. São invejáveis os sistemas de educação e de saúde dos cubanos. Nos dias que passei lá durante um evento de arquitetura, pude constatar que há pobreza, mas não há mendigos nas ruas. Por outro lado, ao Estado cubano ainda não sobram recursos para recuperar e manter o imenso e belo patrimônio arquitetônico. Vê-se muitos carros antigos, com mais de cinquenta anos ainda circulando nas ruas. Rumo ao hotel, o motorista do taxi me pediu os jornais que eu trouxera do Brasil para levar à sua filha que estava estudando português.


Muitos ainda argumentam que a oferta de bons serviços não supre a falta de liberdade. É certo que nenhuma sociedade sobrevive se as pessoas não podem escolher livremente; ou se elas não podem realizar o que sonham e o que desejam.


Algumas sociedades têm na religião o escape para atender a essas necessidades. Roma inventou o clientelismo e a política do panis et circenses. Nos países submetidos ao regime capitalista, as escolhas, os sonhos e os desejos para uma grande parte da população são aspirações, geralmente, moldadas pela publicidade e, quando se realizam é através do consumo de mercadorias. As mais evidentes são a disneylândia, o carro do ano, o mc'donald, a coca-cola, a calça jean...


Em Cuba, pode haver escassez, mas não há desperdício. Lá, para além do consumismo, não há limite para as escolhas, os sonhos e os desejos. Todos podem escolher, sonhar ou desejar, dentro das limitações de uma sociedade carente de recursos, bloqueada pelos EUA. Desde que não se coloquem contra o socialismo.


Falar sobre Cuba permite pensar o Brasil e seu futuro. Grande parte da população brasileira ainda é analfabeta e vive na pobreza ou na miséria. Saneamento, saúde e outros serviços são insuficientes e precários. A violência policial e a violência do crime organizado estão presentes na maioria das cidades brasileiras. Falta a infraestrutura, há inflação, os juros são extorsivos, os combustíveis e os serviços de telefonia estão entre os mais caros do mundo. A maioria da população brasileira nem chega a sonhar com a disneylândia, o carro suv, o mc', a coca-cola, a calça jean... Uma parcela mínima da população, a elite dominante, se apropria de mais de noventa por cento da riqueza nacional.

Alguns argumentam que, apesar de tudo, no Brasil há democracia. Dizem que aqui as pessoas, livremente, elegem os prefeitos, governadores, presidentes e os parlamentares. Afirmam que o poder judiciário é independente...


Porém, a triste realidade brasileira destrói todos esses argumentos. Os costumeiros golpes de estado, a corrupção que envolve representantes dos três poderes, e as eleições fraudulentas, como aconteceu recentemente (em 2018), mostram a subserviência internacional do país, o uso do poder para o enriquecimento pessoal e a permanência da pobreza e da miséria como suporte da dominação e exploração.


A democracia que existe no Brasil é para poucos, é excludente.


Por isso, é necessário lutar a cada momento para ampliar os espaços democráticos, fortalecer as instituições e garantir a justiça social; e para promover o desenvolvimento econômico, o pleno emprego e a distribuição de renda. Melhorar, enfim, as condições de vida da população. A educação é uma condição necessária para que o povo tenha acesso à informação, reconheça sua realidade e sua história.


Esse seria um caminho para instaurar e aperfeiçoar a democracia... É esta a utopia que o povo brasileiro gostaria de ver realizada.


Sei, todavia, que há uma grande distância entre o sonho e a realidade. E, frequentemente, o sonho da utopia tem se transformado no pesadelo da distopia.


A Revolução Francesa, engolfada pela voracidade da guilhotina e pelas ambições napoleônicas, quase se reduziu ao seu famoso slogan: liberdade, igualdade e fraternidade. A Comuna de Paris também não se realizou...


Mais adiante, a Revolução Russa trocou as generosas promessas do comunismo por um Estado policial, com campos de concentração, trabalho forçado e assassinatos.


Por sua vez, a democracia norte-americana preservou a escravidão e, depois, institucionalizou um apartheid social. Lá, até hoje, os policiais matam os jovens negros democraticamente e com direito a transmissão ao vivo pela televisão.


Aliás, os EUA adotam um modo peculiar de levar a democracia a outras nações. Com a desculpa de eliminar armas de destruição em massa e implantar a democracia, o Iraque foi destruído. Uma receita parecida está sendo usada para destruir a Síria. E cidades da antiga Iugoslávia foram bombardeadas com o mesmo objetivo democrático... Tudo isso foi feito e está sendo feito, pelos EUA, impunemente, em nome da democracia!


Diante desses fatos, poderia ser desencorajador sonhar com a utopia.


Mas é forçoso reconhecer que a Revolução Francesa, a Democracia Norte-americana e a Revolução Soviética, além de consolidar a Declaração Universal dos Direitos Humanos, contribuíram para a regulamentação dos direitos sindicais, trabalhistas, previdenciários, e por outras conquistas sociais.


Por isso, não há outro caminho: ou sonhamos e agimos para alcançar a utopia, ou a barbárie nos alcança, definitivamente.


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