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Contar a história do Brasil é também cantar as histórias. Assim, no livro BAIÃO DE DOIS: SONS E SABORES DO BRASIL há, aproximadamente, noventa músicas representativas dos períodos históricos brasileiros.

 

A seguir, uma versão compacta da Trilha Sonora do Baião, separada por blocos temáticos. No texto abaixo, apresentamos temas ligados às Navegações e ao início da Colonização; em seguida, músicas da Independência à República.

 

E, ainda, nas postagens em Poesia, estão as canções relacionadas a Escravidão, Sertões, Amazônia e as músicas de protesto

e luta contra a Ditadura Militar.

Capítulo 1 – Os Argonautas

 

Para comemorar a vitória da revolução portuguesa, Chico Buarque de Holanda fez duas letras para a canção Tanto mar, já que a primeira versão, de 1975, foi proibida pela censura militar brasileira. A segunda foi lançada em 1978. Chico Buarque, diante das ditaduras portuguesa e brasileira, traz uma esperança. Pois, felizmente, sempre ficam sementes de liberdade em algum canto de jardim...

Na música pode-se ler um paralelo entre Portugal e Brasil. A ditadura de Portugal, mais longeva, estava acabando. A do Brasil ainda duraria mais de dez anos. Por isso, a música fala de comemoração e de lamento. Porque, mesmo sabendo que a festa tinha sido bonita, Chico também sabia que, tanto aqui quanto em além-mar,

ainda é preciso muito navegar.

 

Foi bonita a festa, pá
fiquei contente.
Ainda guardo renitente 
um velho cravo para mim.

Já murcharam tua festa, pá
mas certamente
esqueceram uma semente 
em algum canto de jardim.

Sei que há léguas a nos separar.
Tanto mar, tanto mar.
Sei também quanto é preciso, pá
navegar, navegar.

Canta a primavera, pá…

 

Navegar! Em 1969, Caetano Veloso também seguiu essa sequência inspirada e inspiradora [Navegar é preciso] e compôs Os argonautas. A tristeza latente não diminui a beleza do seu poema canção:

O barco!

Meu coração não aguenta
tanta tormenta, alegria.
Meu coração não contenta. 
O dia, o marco (...)
o porto, não!...

Navegar é preciso.
Viver não é preciso...

 

A música de Chico Buarque e Rui Guerra, Fado tropical, fala de semelhanças e de contrastes culturais; fala das aproximações que existiriam entre Portugal e Brasil, ao longo do processo da colonização brasileira. Esta música, composta para a peça de teatro Calabar: elogio da traição, foi censurada e proibida em 1973, quando a ditadura militar recrudescia em violência. As metáforas contidas em seus versos vão muito além da história colonial:

                 

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:
ainda vai tornar-se um imenso Portugal!

Sabe, no fundo eu sou um sentimental. Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (além da sífilis, é claro). Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, o meu coração fecha os olhos e sinceramente chora...

Com avencas na caatinga

alecrins no canavial

licores na moringa:
um vinho tropical.
E a linda mulata
com rendas do Alentejo... (...)

Guitarras e sanfonas
jasmins, coqueiros, fontes
sardinhas, mandioca
num suave azulejo. (...)

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:
ainda vai tornar-se um império colonial!

 

Capítulo 2 – Gabriela, Cravo e Canela

 

Gabriela é o título e o tema do romance de Jorge Amado e da música de Tom Jobim; a história se desenvolve em Ilhéus, no litoral sul da Bahia, onde florescem e frutificam as plantações de cacau, de cravo da Índia, pimenta do reino e as palmeiras de dendê originárias da África, além de outros cultivos. São os temperos que dão cheiros e sabores à culinária brasileira. Eles são parte das especiarias que motivaram as grandes navegações; o objeto de desejo de nobres e burgueses europeus; a pimenta, o cravo e a canela que os compositores inspirados transformaram em música.

 

Vim do Norte, vim de longe
de um lugar que já nem há.
Vim dormindo pela estrada
vim parar neste lugar.
Meu cheiro é de cravo
minha cor de canela.
A minha bandeira
é verde e amarela.
Pimenta de cheiro
cebola em rodela
um beijo na boca
feijão na panela:
Gabriela.
Sempre Gabriela. (...)

 

A música Cravo e canela, de Ronaldo Bastos e Milton Nascimento, lançada em 1976, também se remete a essa expressão simbólica da cultura e do povo brasileiro. A sua letra, como a de Jobim, traz uma imagem recorrente do nosso cancioneiro, que mistura a cor da pele, os cheiros e a sensualidade da mulata e da morena, com o mel do cacau, o cravo e a canela; com os temperos...

 

Ê! morena quem temperou?

Cigana quem temperou?
O cheiro do cravo?
Ah! menina quem temperou?
Cigana quem temperou?
A cor de canela? (...)

O mel do cacau
e o sol da manhã

 

Capítulo 3 – Um Navegante Atrevido

 

A canção Las tres carabellas, de Algueró Jr. e Moreu, vertida para o português por João de Barro, registrou de forma livre e alegre a viagem de Cristóvão Colombo

e a descoberta do Novo Mundo.

 

Un navegante atrevido

salió de Palos un día.
Iba con tres carabelas
La Pinta, la Niña y la Santa María.

Hacia la tierra cubana

con toda sua valentia.
Fue con las tres carabelas
la Pinta, la Niña y la Santa María.

Muita coisa sucedeu

daquele tempo pra cá

o Brasil aconteceu.
É o maior, que que há?!

(...) Em terras americanas
saltou feliz certo dia.
Vinha com três caravelas
a Pinta, a Nina e a Santa Maria

Mira, tu, que cosas pasan

que algunos años después
en esta tierra cubana

yo encontré a mí querer.

(...) Viva Cristóvão Colombo
que para nossa alegria
veio com três caravelas
a Pinta, a Nina e a Santa Maria
(la Pinta, la Niña y la Santa María).

               

[...] Em outra música, América geral, os autores Claudio Rabello e Marcos Valle falam do sonho de uma América unificada, habitada por um povo feliz.

Levo em mim um sonho
de ver o sol se pôr
e não ter dormindo nas calçadas.
Crianças sem amor.

Ter um só povo americano
querendo ver o fim
desse medo de ser Hermano.
Porque somente assim...

toda América
será América.
América geral. (...)

De norte, sul, central. (...)
América igual.
Oh América!

Faz América
de um sonho ser real
América geral!

(...) Um país que não tem fronteiras.
O povo é mais feliz

(...) esse sonho americano
de ser um povo só
onde o medo, o frio, a fome
e o vício terão fim.
Essa América de tantos nomes
é uma só em mim. (...)

 

Capítulo 4 – Quem foi que inventou o Brasil?

 

Uma das canções sobre as navegações, O descobrimento do Brasil, de um modo debochado, adota a perspectiva portuguesa. Gravada, em 1966, pelo cantor e humorista Ari Toledo, trata-se de uma longa composição, entremeada de narrativas e de diálogos. A letra mistura fatos antigos com assuntos contemporâneos. A interpretação teatral de Ari Toledo, que oscila entre o solene e o burlesco, transforma o anacronismo em piada, realçando ainda mais a irreverência e o deboche da peça.

Começa com um diálogo entre Dom Manoel e Cabral:

 

Corre o Ano da Graça de 1500. Estamos na corte de Portugal, onde tudo vai bem e nada vai mal. E aí eis que vem d. Manoel

com três penas no chapéu.

-Oh, Caminha! Oh, Cabral! Mandei te chamar para uma missão muito especial. Apronta rápido tuas caravelas e parte em rumo do Brasil. E navegando teus barcos à vela te imortalizarás

nas notas de mil.

-Oh, meu rei. Que grande felicidade ser contratado por essa empresa rica. Mas me diga uma coisa majestade e esse Brasil onde é que fica?

-Vou te dar a dica, mas não contas a ninguém. Segues a rota que nos convém. E passa setenta e sete e um mil. E se não fores a alguma parte é bem possível que descubras o Brasil.

Então partiu Cabral comandando as caravelas...

 

A rápida passagem dos portugueses pelas terras recém “descobertas” serviu de inspiração ao grupo pernambucano Mestre Ambrósio, que na canção Fuá na casa de Cabral (1998), imaginou de forma jocosa a realização de um forró e uma primeira missa, nas quais o almirante Pedro Álvares Cabral, transmudado em brasileiro, parecia antever os futuros problemas do Brasil.

Naquele Brasil antigo

perdido no desengano

Seu Cabral chegou nadando

e não (se) preocupou com nada.(...)

-Me chama o pai do chiqueiro

que hoje eu quero forró

toré, samba, catimbó

que eu já virei brasileiro.

No fim da festa e da farra

Cabral não sentiu preguiça.

Mandou logo rezar missa

pra ficar aliviado.

(...) Mas na hora da verdade

quando passou a cachaça

Seu Cabral sentou na praça

caiu na reflexão.

Disse: Esta situação

Sei que nunca mais resolvo!

Então falou para o povo:

Juro que me arrependi.

O Brasil que eu descobri

queria cobrir de novo!

 

Em Descobrimento do Brasil - Chegança, Antônio Nóbrega (1998), canta na perspectiva dos habitantes da terra.

Sou Pataxó.

Sou Xavante e Cariri.

Ianomami, sou Tupi.

Guarani, sou Carajá.

Sou Pancaruru

Carijó, Tupinajé,

Potiguar, sou caeté,

Ful-ni-ô, Tupinambá.

(...) Eu pensei: vou procurar

um mundo novo

lá depois do horizonte.

(...)Eu atraquei

num porto muito seguro

céu, azul, paz e ar puro...

Botei as pernas pro ar.

Logo sonhei

que estava no paraíso

(...) Mas de repente

me acordei com a surpresa:

uma esquadra portuguesa

veio na praia atracar.

Da grande-nau

um branco de barba escura

vestindo uma armadura

me apontou pra me pegar.

E assustado

dei um pulo lá da rede,

pressenti a fome, a sede,

Eu pensei: vão me acabar.

O índio tinha razão em pensar assim. A partir da chegada dos portugueses à baía (de Cabrália) e do avistamento do Monte Pascoal não haveria mais nenhum porto seguro para os índios, e eles estavam fadados a se acabar! De fato, a chegança dos portugueses à Pindorama marcou o início do fim da terra sem males. E o que se seguiu foi a fome, a sede, doenças e a morte. A conquista e colonização foi feita com a usurpação territorial, com a exploração e o extermínio de grande parte dos habitantes de Pindorama.

 

Muitas músicas, como as de Ari Toledo, Mestre Ambrósio e Antônio Nóbrega, abordam o tema do descobrimento do Brasil. Entre elas destaca-se a marchinha de Babo, História do Brasil. Na música, o autor trata com descontração aquele acontecimento histórico. Em vez de entrar na polêmica descobriu-não-descobriu, Babo inovou perguntando na primeira estrofe, quem inventou o Brasil.

 

Quem foi que inventou o Brasil?

Foi seu Cabral!

Foi seu Cabral!

No dia vinte e dois de abril
dois meses depois do carnaval. (...)

Depois
Ceci virou Iaiá.
Peri virou Ioiô.

De lá... pra cá tudo mudou!
Passou-se o tempo da vovó.
Quem manda é a Severa
e o cavalo Mossoró.

(...) ao som... ao som do Guarani!

Do Guarani ao guaraná
surgiu a feijoada
e mais tarde o Paraty.

 

Capítulo 5 – Feijoada Completa

Tanto a feijoada quanto o seu antigo parente, o cozido português, quando feitos com uma grande variedade de ingredientes, incluindo carnes e embutidos, resultam serem comidas muito caras. Como consequência, essas comidas costumam ser preparadas para um grande número de pessoas. Elas são apropriadas para o almoço de domingo, nas casas dos pais, dos avós; para a reunião da grande família e convidados. Ou, ainda, para o encontro de grupos de amigos e conhecidos, que se reúnem para conversar, tocar e cantar, como nas rodas de samba, batucada e chorinho, como cantaram Paulinho da Viola (no Pagode do Vavá), e Chico Buarque de Holanda na sua primorosa Feijoada completa:

 

Mulher, você vai gostar:
Tô levando uns amigos pra conversar.
(...) Salta a cerveja estupidamente
gelada pr'um batalhão.

E vamos botar água no feijão.

(...)Ponha os pratos no chão e o chão tá posto
e prepare as linguiças pro tira-gosto.
Uca, açúcar, cumbuca de gelo, limão.
E vamos botar água no feijão.

Mulher, você vai fritar
um montão de torresmo pra acompanhar:
Arroz branco, farofa e a malagueta.
A laranja-baía ou da seleta.
Joga o paio, carne seca

toucinho no caldeirão.
E vamos botar água no feijão.

Mulher, depois de salgar
faça um bom refogado

que é pra engrossar.
Aproveite a gordura da frigideira
pra melhor temperar a couve mineira.

 

Capítulo 6 Na Terra do Pau-Brasil, Nem Tudo Caminha Viu

 

Na terra do pau-brasil, nem tudo Caminha viu. Este é o título do samba enredo da Escola de Samba Império Serrano, de autoria de Roberto Ribeiro, Jorge Lucas e Edson Paiva, cantado no desfile do carnaval de 1981 [...] trata-se de uma das poucas músicas que falam de Pero Vaz de Caminha. Só isso já justifica sua inserção aqui:

 

(...)Hoje o Império Serrano
vem com Pero Vaz de Caminha
o célebre eminente precursor.

Ô, ô, ô, ô, ô (bis)

Em tempos idos
chegavam a uma vasta região
audazes descobridores
dando-se a integração
com os primitivos habitantes
deste imenso torrão.

(...)A beleza da mulata
enaltece a raça 
com seu requebro febril.
Nossos rios, campos e florestas
emolduram a natureza.

O ouro e pedras preciosas
são riquezas do solo deste Brasil
que Pero Vaz de Caminha não viu...

 

*

Antônio Carlos de Santana Bernardes Gomes, o Mussum que, antes de integrar o grupo de comediantes Os trapalhões, fizera parte do conjunto Os originais do samba, também compôs uma música sobre o Descobrimento do Brasil, lançada em 1980. A música é um tipo de samba exaltação, que menciona o escrivão Pero Vaz de Caminha e sua Carta, dribla as dificuldades dos sambas enredo, e, surpreendentemente, não fala da mulata!...

 

(...)
No dia nove de março, no ano de 1500 
deixaram o cais do Tejo em Portugal 
treze caravelas 
comandadas por Pedro Álvares Cabral.
Após navegar vários dias 
afastando-se da costa 
evitando as calmarias 
finalmente, no dia 22 de abril

Pedro Álvares Cabral, descobriu 
nossa Pátria Idolatrada 
dando o nome de Ilha de Vera Cruz.
Depois, Terra de Santa Cruz.
Trazia Cabral em sua frota 
homens de conhecimento
entre eles destacamos Pero Vaz de Caminha
(...) o autor da carta histórica 
que o mundo inteiro conheceu.
Quanta beleza se encerra 
nesta linda terra de encantos mil!

(...)

 

Hoje é totalmente impossível descrever as emoções de parte a parte naquele primeiro encontro de índios e portugueses. É difícil falar da perplexidade estampada nos seus rostos. É impossível saber quais as perguntas que cada um se fez diante daquele acontecimento inaudito; diante do desconhecido, em face daquele contato. A carta de Caminha nos dá apenas algumas pistas.

 

Em sua música sobre o Descobrimento, lançada em 2007, Toquinho e Paulo Cesar Pinheiro falam das belezas e riquezas vistas e não vistas pelos portugueses em Pindorama. [...] à parte essa exaltação das nativas que encantavam os invasores, a letra sugere que o grande investimento português, feito para descobrir o Brasil, se pagaria com as riquezas da terra. Uma riqueza que nem em quinhentos anos, segundo os autores, daria tempo para levar tudo.


Terra à vista, a tripulação se assanha.
Cachoeiras jorrando da montanha.
Quanta cor, quanta luz, quanto bichano:
onça, paca, tatu, guará, tucano

cobra, mico, jacu, arara, aranha
peixe-boi, capivara e ariranha.
Que surpresa pro povo lusitano!
(...)Que riqueza a madeira dessa mata:
pau-brasil, jatobá e gameleira.
Quanto ouro rolando a ribanceira.
Na pedreira, granito, ferro e prata.
Esmeraldas brotando em cada reta.
Diamantes descendo em corredeira.
A borracha a escorrer da seringueira.
Índia nua nas águas da cascata.
É tesouro pra encher muita fragata
na fartura da terra brasileira.
(...)...é fortuna demais pra botocudo.
A riqueza que a nova terra tinha
nem com quinhentos anos, ó Rainha

vai dar tempo da gente levar tudo.

 

O compositor Maurício Tizumba em sua música Brasil 500, em homenagem aos quinhentos anos do descobrimento do Brasil, evocou a famosa afirmação de Pero Vaz de Caminha para reclamar mais atenção aos camponeses sem terra. Mas, os antigos e os atuais feitores do Brasil, há quinhentos anos, não querem ouvir a reclamação. Os brasileiros só querem plantar, colher e ser felizes!

 

Há quinhentos anos atrás

aqui do Brasil
Pero Vaz de Caminha escreveu
uma carta para o rei de Portugal

que dizia assim:
Aqui nessa terra

tudo que se planta nasce

cresce e floresce.

O Brasil não pode ter miséria!

O Brasil não pode ter miséria!
Nessa terra de tanta fartura
Olorum, xô miséria!

Os brasileiros só querem plantar, colher e ser felizes!

Deixa o povo plantar.
Deixa o povo colher.
Deixa o povo ser feliz.

 

Assim, depois de achar essa terra nova, Pedro Álvares Cabral partiu para as Índias, a cumprir as outras tarefas que lhe haviam sido dadas por D. Manoel, rei de Portugal. Estava concluída a primeira invenção do Brasil.

*

No final dos anos 1960, Caetano Veloso, ao visitar Brasília, em uma bela e incisiva canção, revisitou a história do Brasil. Em Tropicália, lançada em 1968, o compositor fez uma colagem de retratos instantâneos da sociedade brasileira. A tônica da composição mostra as diferenças, o contraste e a contradição de situações e de cenas que caracterizam o Brasil. O pano de fundo é a preservação das desigualdades e da exclusão, da concentração da riqueza ao lado da pobreza e da miséria.

Sobre a cabeça os aviões.
Sob os meus pés os caminhões.
Aponta contra os chapadões
meu nariz.

Eu organizo o movimento
eu oriento o carnaval
eu inauguro o monumento
no planalto central do país. (...)

 

Por isso, a música fala da modernidade dos monumentos de Brasília que, diante da política repressora da ditadura militar e da falta de democracia, se assemelham a falsificações, alegorias carnavalescas.

 

O monumento

é de papel crepom e prata.
Os olhos verdes da mulata.
A cabeleira esconde
atrás da verde mata
o luar do sertão.

 

O compositor contrasta a elegância modernista desses monumentos do Planalto Central com a pobreza que sobrevive nas favelas, nas periferias do Brasil.

O monumento não tem porta.
A entrada é uma rua antiga
estreita e torta.
E no joelho uma criança
sorridente, feia e morta
estende a mão.

(...) e no jardim os urubus passeiam
a tarde inteira entre os girassóis.

(...) Porém...

O monumento é bem moderno.
Não disse nada do modelo
do meu terno.
Que tudo mais vá pro inferno
meu bem.

 

Capítulo 7 – Todo dia era Dia de Índio

 

A alegria é a prova dos nove!  Em Geleia geral, música memorável de Gilberto Gil e Torquato Neto, lançada em 1968, se articulam o descobrimento da terra Pindorama e o Manifesto Antropófago (Oswald de Andrade), na perspectiva do Tropicalismo.

 

A alegria é a prova dos nove
e a tristeza é teu Porto Seguro.
Minha terra é onde o Sol é mais limpo.
Em Mangueira é onde o Samba é mais puro.
Tumbadora na selva-selvagem
Pindorama, país do futuro.

 

Para os tupi-guarani, Pindorama era uma terra livre dos males.

Depois, tudo foi piorando e perdendo o encantamento. Certamente, Pindorama era, e o Brasil ainda é, um lugar de muita beleza, que os versos dos compositores costumam exaltar.

Em Pindorama, até a chegada dos portugueses, todo dia era dia de índio, como diz a canção lançada, em 1981, composta por Jorge Benjor.

A diferença é que até 1500, todo dia era dia de índio, como diz a canção, de autoria de Jorge Benjor, Curumim chama cunhatã que eu vou contar:

(...)

Antes que os homens aqui pisassem nas ricas e férteis Terraes Brasilis que eram povoadas e amadas por milhões de índios
reais donos felizes da terra do pau brasil...
Pois todo dia e toda hora era dia de índio.
Mas agora eles têm só um dia.
Um dia dezenove de abril.
(...) Amantes da pureza e da natureza
eles são de verdade incapazes
de maltratarem as fêmeas
ou de poluir o rio, o céu e o mar.
Protegendo o equilíbrio ecológico
da terra, fauna e flora pois na sua história
o índio é exemplo mais puro
mais perfeito, mais belo
junto da harmonia da fraternidade
e da alegria, da alegria de viver.
Da alegria de amar.
(...) agora o seu canto de guerra
é um choro de uma raça inocente
que já foi muito contente.
Pois antigamente
todo dia era dia de índio.
Todo dia era dia de índio. (...)

 

*

O boi-bumbá Boi Garantido se apresentou no festival da cidade de Parintins, no Amazonas, em 2004, com a música Índio do Brasil, composta por Demetrios Haidos e Geandro Pantoja. A música fala das belezas, do sagrado e da harmonia com a natureza.

 

(...)

Eu vivia em plena harmonia com a natureza
mas num triste dia o kariwa invasor
no meu solo sagrado pisou

desbotando o verde das florestas

garimpando o leito desses rios.
 

Ela canta a floresta e os animais, relembra as culturas que existiam antes da chegada dos portugueses. Fala da invasão dos homens brancos, interrompendo a harmonia que existia entre os índios e a natureza. Refere-se aos cinco séculos de exploração das terras indígenas e da resistência dos povos que sobreviveram.

 

(...) Já são cinco séculos de exploração.
Mas a resistência ainda pulsa no meu coração.
Na cerâmica Marajoara, no remo Sateré.
Na plumária ka'apor, na pintura kadiwéu.
No muiraquitã da icamiaba.

 

A canção declara que, na luta para sobreviver, o índio que habitava Pindorama, agora é também o índio do Brasil.

 

Canta índio do Brasil.
Canta índio do Brasil.
Canta índio do Brasil.
Anauê nhandeva, anauê hei, hei, hei!

Dos filhos deste solo és mãe gentil pátria amada Brasil

 

Depois de tantos massacres, que persistem até hoje, ainda sobrevivem, em diversas regiões do país, mais de 283 etnias, com180 línguas e dialetos. Grande parte dessa população vive no estado do Amazonas, sendo que algumas tribos ainda não foram contatadas ou estão isoladas; outras são desconhecidas.

Alguns grupos vivem no Parque Xingu e em outras reservas. Também há remanescentes indígenas vivendo nas periferias de cidades brasileiras, integrados à sociedade tal como os demais pobres e miseráveis, isto é, excluídos.

 

*

 

[Capítulo 8 – Cunhadismo]

 

Capítulo 9 – Em 1530, então, veio a solução

 

Em 1530 então veio a solução. Este é o penúltimo verso da letra de Brasil mil e quinhentos, música de autoria de Juan Bender.

 

(...) Portugal precisava enfim colonizar
pois a ameaça francesa começava a perturbar.
Em 1530 então veio a solução:
Martin Afonso de Souza traz a sua expedição.

 

Nas primeiras décadas, depois do descobrimento, Portugal apenas procurou evitar a perda de sua colônia. Durante mais de trinta anos, como diz a canção de Jean Bender, as terras conquistadas pelos portugueses permaneceram, praticamente, abandonadas.

 

As terras descobertas em 1500
não tinham valor e caíram no esquecimento.
A coroa portuguesa tinha mais o que fazer.
Mas plantaram feitorias pra dos índios recolher
o famoso pau brasil através do escambo.
E no pré-colonialismo se passaram 30 anos.

 

Ela se refere a alguns detalhes dos primeiros trinta anos da dominação portuguesa em Pindorama [...].

 

Mas nesse meio tempo um perigo foi real.
Ameaças, ataque, franceses no litoral.
Pois aqueles que ficaram de fora do tratado
queriam seus direitos no novo mundo roubado.

(...) Portugal precisava enfim colonizar
pois a ameaça francesa começava a perturbar.
Em 1530 então veio a solução:
Martin Afonso de Souza traz a sua expedição.

 

Capítulo 10 – Cana-de-Engenho

 

No cancioneiro brasileiro há músicas que falam da cana de açúcar, dos engenhos, da aguardente de cana e de outros derivados. Uma delas, Cana de engenho, composta por Amauri Romano, faz um pequeno elogio aos subprodutos da cana-de-açúcar: além da garapa, a cachaça, os doces e os coquetéis.

A cana que faz o melaço

rapadura e açúcar mascavo

a cana que adoça na cozinha

também completa o barril de carvalho.

 

Lamartine Babo na já citada música Quem inventou o Brasil? fala da cachaça Paraty, no que parece ter sido um dos primeiros registros em música da aguardente brasileira. Outro compositor, Assis Valente, diz no samba Camisa listrada:

 

Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí.

Em vez de tomar chá com torradas ele bebeu parati...

 

[...] No imaginário e nas narrativas populares a cachaça está

associada à contravenção, ao desregramento e ao alcoolismo. Outras bebidas alcoólicas estão sancionadas pela sociedade; são socialmente aceitas. Mas a cachaça não! Trata-se de um preconceito relacionado com a sua origem e com os consumidores para quem se fabricava: os negros escravizados, os pobres, os moradores de rua etc.

Isto só mudou mais recentemente, com a fabricação de cachaças refinadas, cuja qualidade é acompanhada por preços elevados.

[...] Todavia, os preconceitos da elite branca não evitaram um casamento que iria frutificar: tocar violão enquanto se saboreia uma cachaça inspiradora. À revelia da dúbia moral da classe média, uma boa parte da chamada música popular brasileira, através da boemia, das serenatas e das farras, está associada a essa dupla: cachaça e violão. Acrescente-se à dupla o feijão e tudo se transforma em festa.

Em 1972, Paulinho da Viola contou e cantou um belo samba, já mencionado,

No pagode do Vavá, em que elogia o famoso feijão da Vicentina e uma batida gostosa que tinha o nome de doce ilusão:

 

Domingo, lá na casa do Vavá
teve um tremendo pagode
que você não pode imaginar.
Provei do famoso feijão da Vicentina.
Só quem é da Portela é que sabe

que a coisa é divina.

Tinha gente de todo lugar
no pagode do Vavá.

(...) Nego tirava o sapato, ficava à vontade
comia com a mão.
Uma batida gostosa que tinha o nome
de doce ilusão. (...)

 

 

Lista de músicas por capítulo:

 

Capítulo 1

Tanto Mar, Chico Buarque

Os argonautas, Caetano Veloso

Fado tropical, Rui Guerra e Chico Buarque

Capítulo 2

Gabriela, Tom Jobim

Cravo e canela, Ronaldo Bastos e Milton Nascimento

Capítulo 3

Las tres carabellas, de Algueró Jr. e Moreu, vertida para o português por João de Barro

América geral, Claudio Rabello e Marcos Valle

Capítulo 4

Quem foi que inventou o Brasil?, Lamartine Babo

O teu cabelo não nega foi composta em 1929 pelos irmãos João e Raul Valença

O descobrimento do Brasil, Ari Toledo

Fuá na casa de Cabral, Mestre Ambrósio

Chegança, Antônio Nóbrega

Capítulo 5

O preto que satisfaz, Gonzaguinha

Feijoada completa, Chico Buarque

Capítulo 6

Na terra do pau-brasil, nem tudo Caminha viu, Escola de Samba Império Serrano, de autoria de Roberto Ribeiro, Jorge Lucas e Edson Paiva

Descobrimento do Brasil, Antônio Carlos de Santana B. Gomes, Os originais do samba

Descobrimento, Toquinho e Paulo Cesar Pinheiro

Brasil 500, Maurício Tizumba

Tropicália, Caetano Veloso

Capítulo 7

Geleia geral, Gilberto Gil e Torquato Neto

Todo dia era dia de índio, Jorge Benjor

Índio do Brasil, Demetrios Haidos e Geandro Pantoja, Boi Garantido

Capítulo 8 – nenhuma.

Capítulo 9

Brasil mil e quinhentos, Juan Bender

Capítulo 10

Cana de engenho, Amauri Romano

Tem nêgo bêbo aí, Mirabeau e Ayrton Amorim

Cachaça não é água, Marinósio Trigueiros Filho

No pagode do Vavá, Paulinho da Viola

 

 

A seguir, músicas relacionadas à Colonização, Monarquia, 

Independência, República e Primeiros Presidentes:

[clique nos slides para ampliar]

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Playlist disponível no Spotify - clique aqui!

  1. Baião de dois, Luiz Gonzaga

  2. Tanto Mar, Chico Buarque

  3. Os argonautas, Caetano Veloso

  4. Fado tropical, Rui Guerra e Chico Buarque

  5. Gabriela, Tom Jobim

  6. Cravo e canela, Ronaldo Bastos e Milton Nascimento

  7. Las tres carabellas, de Algueró Jr. e Moreu, por João de Barro

  8. Fuá na casa de Cabral, Mestre Ambrósio

  9. Chegança, Antônio Nóbrega

  10. Feijoada completa, Chico Buarque

  11. Na terra do pau-brasil, nem tudo Caminha viu, Escola de Samba Império Serrano, de autoria de Roberto Ribeiro, Jorge Lucas e Edson Paiva

  12. Brasil 500, Maurício Tizumba

  13. Tropicália, Caetano Veloso

  14. Geleia geral, Gilberto Gil e Torquato Neto

  15. Todo dia era dia de índio, Jorge Benjor

  16. Índio do Brasil, Demetrios Haidos e Geandro Pantoja, Boi Garantido

  17. Cachaça não é água, Marinósio Trigueiros Filho

  18. No pagode do Vavá, Paulinho da Viola

  19. Cobra de vidro, em Calabar, Chico Buarque e Rui Guerra

  20. Bárbara, em Calabar, Chico Buarque e Rui Guerra

  21. O canto das três raças, Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro

  22. No tabuleiro da baiana, Dorival Caymmi

  23. Vatapá, Dorival Caymmi

  24. Boi de negro, Boi Bumbá Caprichoso, Erick Nakanome, Frank Azevedo, Moisés Colares, Raurison Nascimento e Ricardo Linhares

  25. Disparada, Geraldo Vandré e Theo Barros

  26. Asa branca, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira

  27. Nasci e vou morrer vaqueiro, Edigar Mão Branca

  28. Vida de vaqueiro, Luiz Gonzaga

  29. Boi bumbá, Luiz Gonzaga e Gonzaguinha

  30. A Morte do vaqueiro, Luiz Gonzaga e Nelson Barbalho

  31. Saga da Amazônia, Vital Farias

  32. Conori - As Amazonas, Boi Bumbá Caprichoso

  33. Maranhão, meu tesouro, meu torrão, Humberto Maracanã

  34. Garota Do Tacacá, Pinduca

  35. Oh! Minas Gerais, José Duduca de Morais e Manoel Araújo

  36. Xica da Silva, Jorge BenJor

  37. Exaltação a Tiradentes, Penteado e Mano Décio da Viola

  38. Comida mineira, Toninho Geraes e Paulinho Rezende

  39. Hino da Independência do Brasil

  40. História da corte, Paulo Cesar Pinheiro e Toquinho

  41. Hino da República, Medeiros e Albuquerque e Leopoldo Miguez

  42. Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós, Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense, Niltinho Tristeza, Preto Jóia, Vicentinho e Jurandir

  43. Mestre sala dos mares, João Bosco e Aldir Blanc

  44. O bonde de São Januário, Wilson Batista

  45. Três apitos, Noel Rosa

  46. Zé Marmita, de Brasinha e Luiz Antônio

  47. O rancho da goiabada, João Bosco e Aldir Blanc

  48. Presidente bossa nova, Juca Chaves

  49. Brilhante ao sol do novo mundo, Brasília: do sonho à realidade..., Beija-Flor de Nilópolis, A Moraes, G. Costa, N. Costa, S. Romai e Wilsinho Paz

  50. Congresso Mal-assombrado, DFC

  51. Brasil já vai à guerra, Juca Chaves

  52. Pra não dizer que não falei de flores, Geraldo Vandré e Theo Barros

  53. Dona Maria Tereza, Juca Chaves

  54. Opinião – Zé Keti; espetáculo de teatro/musical, texto de Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes e direção de Augusto Boal

  55. Carcará, de João do Vale

  56. Acender as velas Zé Keti

  57. Terra de ninguém, Marcos Valle

  58. Sem deus, com a família, de Cesar Roldão Vieira

  59. Festa de arromba, Erasmo Carlos

  60. Gatinha manhosa, Erasmo Carlos

  61. Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones, música italiana, de autoria de Enriquez Migliacci, Mauro Lusini e Paulino Brancato Jr

  62. É proibido proibir, Caetano Veloso

  63. Acorda amor, Chico Buarque-Julinho de Adelaide

  64. O bêbado e a equilibrista, Aldir Blanc e João Bosco

  65. Vai passar, Chico Buarque

  66. Coração de estudante, Milton Nascimento e Wagner Tiso

  67. Que país é esse?, Renato Russo, Legião Urbana

  68. Aluga-se, Raul Seixas e Claudio Roberto Azevedo

  69. É , Gonzaguinha

  70. Samba da utopia, Jonathan Silva